Em resumo

A oferta pública inicial (IPO) recorde da SpaceX atribui um valor de mercado a uma convicção que os investidores privados já têm: o setor espacial é um segmento de investimento duradouro, e não um ciclo passageiro. O investimento privado em tecnologia espacial atingiu um recorde de US$ 12,4 bilhões em 2025, um aumento de 48% em relação ao ano anterior, mesmo com o arrefecimento do financiamento de risco em outros setores, sendo que os EUA captaram 60% (cerca de US$ 7,3 bilhões). Os negócios em estágio avançado representaram 41,3% das transações de capital de risco em tecnologia espacial, sinalizando que o capital está se concentrando em negócios comprovados e geradores de receita, em vez de apostas especulativas.

A próxima onda da economia da IA requer conectividade em tempo real que as redes terrestres não conseguem oferecer. Os satélites LEO são a única solução viável. Veículos autônomos, robótica industrial, logística com drones e gerenciamento de redes elétricas baseado em IA dependem, todos, de conectividade contínua e de baixa latência, algo que o 5G não consegue atender, já que 40% da superfície terrestre global fica fora de uma cobertura confiável.

O mercado de serviços LEO está a caminho de uma expansão de 7 a 8 vezes nesta década, dentro de uma economia espacial mais ampla que deve triplicar. Avaliados em cerca de US$ 16 bilhões em 2025, os serviços LEO devem atingir US$ 120 bilhões até 2030, impulsionados principalmente pela demanda empresarial e industrial. A economia espacial mais ampla, que atualmente representa cerca de US$ 600 bilhões, deve ultrapassar US$ 1,8 trilhão até 2035.

Os EUA mantêm uma liderança dominante por meio da integração vertical da SpaceX e da lógica de hiperescalabilidade da Amazon, mas a China está diminuindo a diferença com capital estatal e ambição soberana. Os 7.000 satélites da SpaceX em órbita e seu IPO bem-sucedido a posicionam como a espinha dorsal padrão de conectividade da economia de IA; a Amazon investiu mais de US$ 10 bilhões no Projeto Kuiper, visando o mesmo segmento empresarial. Enquanto isso, o portfólio credível da China para o curto prazo chega a cerca de 27.000 satélites entre operadoras apoiadas pelo Estado — o que deve representar cerca de 40% dos satélites LEO efetivos até 2030 —, replicando o modelo usado em veículos elétricos, com o financiamento estatal eliminando as restrições de capital que limitam os rivais comerciais.

Os mercados emergentes são o campo de batalha estratégico onde se decidirá o equilíbrio de longo prazo do poder da infraestrutura digital. A penetração da banda larga fixa permanece abaixo de 40% na África e de 80% na Ásia-Pacífico e na América Latina (contra mais de 90% na Europa e na América do Norte). A China agiu mais cedo e de forma mais deliberada do que os concorrentes ocidentais, posicionando a LEO como a camada de conectividade da extensão digital da Iniciativa “Cinturão e Rota” e replicando o modelo da Huawei – preços abaixo do mercado, dependência técnica e conversão da dependência de infraestrutura em vantagem geopolítica. Índia, Brasil e os países soberanos do Golfo têm escala ou ativos estratégicos suficientes para negociar termos; as mais de 150 economias restantes enfrentam uma dependência direta.

A melhor estratégia da Europa é controlar um ponto-chave na cadeia de valor, em vez de competir em escala de constelação – o modelo da ASML aplicado aos lançamentos. Com os cerca de 650 satélites da Eutelsat OneWeb limitados financeiramente e a constelação soberana de 280 satélites da IRIS² limitada por seu próprio projeto, a Europa não consegue se equiparar ao pipeline de mais de 100.000 satélites dos EUA e da China. O caminho viável é aprofundar a posição da Arianespace como prestadora indispensável de serviços de lançamento — já validada pelo contrato da Amazon para o Kuiper com o Ariane 6 —, ao mesmo tempo em que se supera a lacuna de reutilização, avançando rumo ao Ariane Next na década de 2030.

Ludovic Subran
Allianz Investment Management SE

Jordi Basco-Carrera
Allianz Investment Management SE

Guillaume Dejean

Allianz Trade

Ano Kuhanathan
Allianz Trade