27 de outubro de 2026
Sumário
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Insolvências em Portugal
Em Portugal, as insolvências estabilizaram nos primeiros nove meses de 2026, com 1.632 processos. A nível global, deverão voltar a aumentar +1% em 2027, depois de subidas de +5% em 2026 e de +6% em 2025.
- Para as empresas, a pressão resulta de um crescimento do PIB aquém do esperado e de taxas de juro e custos energéticos elevados por mais tempo, a que se soma o maior número de empresas ativas.
- A nível global, 2,7 milhões de postos de trabalho estão diretamente em risco por ano em 2026 e 2027, mais 180 mil do que em 2025.
- A adoção da IA pode acelerar as insolvências empresariais em mercados de menor dimensão e menos diversificados, devido ao fosso competitivo que cria entre as empresas pioneiras na sua adoção e as que ficam para trás.
Portugal: insolvências estabilizam nos primeiros nove meses de 2026
Os primeiros nove meses de 2026 confirmam uma estabilização das insolvências empresariais em Portugal, com 1.632 processos registados, embora persistam diferenças relevantes entre setores, regiões e dimensões empresariais.
As previsões da Allianz Trade indicam que Portugal deverá continuar a ser uma das poucas exceções face aos seus pares regionais, com um número de insolvências persistentemente baixo. Ainda assim, deverá terminar 2026 com um número de casos praticamente estável (2.250), apesar das disparidades persistentes entre setores: os primeiros oito meses do ano sugerem uma nova subida na construção, um aumento continuado nos serviços, uma descida prolongada no retalho e nos têxteis e uma inversão da tendência, em sentido descendente, nos transportes. Uma vez que o crescimento económico português deverá revelar uma resiliência relativa, a previsão é que os vários desafios enfrentados pelas empresas, nomeadamente ao nível dos custos de financiamento e dos custos dos fatores de produção, conduzam a uma subida moderada das insolvências empresariais para 2.300 casos em 2027 (+2%).
A evolução mensal evidencia uma inversão da tendência do primeiro semestre. Após os aumentos expressivos de março (+22,2%), abril (+21,0%) e junho (+17,8%), registaram-se reduções consecutivas em julho (-4,0%), agosto (-27,6%) e setembro (-13,8%). Esta melhoria recente constitui um sinal positivo, embora ainda insuficiente para confirmar uma recuperação sustentada da situação financeira das empresas.
Na análise setorial, os Serviços (-4,2%) e a Construção (+11,5%) concentraram 45,2% das insolvências nacionais, destacando-se o agravamento na Construção, com 319 processos. Em contrapartida, o Retalho (-15,2%), o Agroalimentar (-10,6%) e os Têxteis (-8,4%) apresentaram evoluções favoráveis.
Regionalmente, Lisboa manteve a maior concentração de insolvências, com 476 processos (29,2% do total), enquanto o Porto registou 389 processos, traduzindo uma redução de 14,3%. Em sentido contrário, Aveiro apresentou um agravamento de 16,1%, evidenciando diferentes níveis de vulnerabilidade regional.
Quanto à dimensão empresarial, as microempresas continuaram a dominar, representando 67,5% dos processos (1.101 insolvências). Contudo, o aumento nas pequenas (+7,9%) e médias empresas (+10,7%) merece especial atenção, pelo potencial impacto nas cadeias de fornecimento e nas exposições de crédito.
Em síntese, a melhoria observada no terceiro trimestre é encorajadora, mas não elimina os fatores de vulnerabilidade do tecido empresarial. A evolução diferenciada entre setores e empresas reforça a importância de uma avaliação de risco criteriosa e prospetiva, capaz de distinguir dificuldades conjunturais de fragilidades estruturais, antecipar sinais de deterioração financeira e sustentar decisões de crédito equilibradas, protegendo os nossos segurados sem comprometer oportunidades de negócio.
A Allianz Trade divulga o seu mais recente Relatório de Insolvências, com previsões atualizadas para 2026 e 2027 e as perspetivas para 2028. Segundo o líder mundial em seguro de crédito, as insolvências empresariais a nível global vão aumentar +5% em 2026 e +1% em 2027 (+6% em 2025), o que corresponde a cinco anos consecutivos de subidas. Face ao contexto geopolítico e macroeconómico incerto, o ponto de viragem das insolvências será adiado um ano, para 2028 (-1%), recuando ligeiramente face a níveis muito elevados.
Crescimento do PIB aquém do esperado, custos energéticos elevados e taxas de juro elevadas por mais tempo
Vários fatores estruturais explicam esta persistência. Com as tensões prolongadas no Médio Oriente, prevê-se que o crescimento do PIB fique aquém do registado no período 2023-2025[1], enquanto os custos energéticos se mantêm elevados e os governos oferecem um apoio orçamental limitado. Paralelamente, a política monetária está a tornar-se mais restritiva, com taxas de juro elevadas por mais tempo a exercer uma pressão adicional sobre as empresas mais vulneráveis. Ao mesmo tempo, o número de empresas ativas aumentou cerca de 10% entre 2021 e 2025. Isto alarga o universo de empresas expostas ao risco de falência, uma vez que muitas destas novas empresas são financeiramente frágeis: menos de metade das novas empresas sobrevive mais de cinco anos na Europa.
“Com múltiplos choques a acumularem-se desde o início do ano, taxas de juro muito mais elevadas do que o esperado estão a aumentar a pressão sobre empresas já fragilizadas, e esta tendência vai manter-se: 60% dos países manterão taxas diretoras mais elevadas em 2027 do que nos 12 a 24 meses anteriores, agravando os custos de financiamento e comprimindo as margens. Na Europa Ocidental, uma subida de 100 p.b. nas taxas de juro do crédito bancário acrescentaria entre 6 e 10 mil milhões de euros em encargos com juros, reduzindo as margens sobretudo nas energias renováveis, nas telecomunicações e no setor elétrico. Por outro lado, custos energéticos elevados por mais tempo vão também intensificar a pressão sobre a rentabilidade, sobretudo nas indústrias europeias com utilização intensiva de energia”, explica Aylin Somersan Coqui, CEO da Allianz Trade.
Cada vez mais postos de trabalho em risco, com novos máximos na Europa e na América do Norte
Segundo a Allianz Trade, cerca de 2,7 milhões de postos de trabalho estão diretamente em risco por ano em 2026 e 2027. Isto representa mais 180 mil do que em 2025 e mais 700 mil do que em 2023, o primeiro ano da retoma das insolvências a nível global após a Covid.
“De forma geral, a construção, o retalho e os serviços são os setores mais expostos. A Europa concentra quase 60% dos postos de trabalho em risco (1,6 milhões), com França, Alemanha e Reino Unido à cabeça. Segue-se a América do Norte, com 24% do total de postos de trabalho afetados (650 mil). Em ambas as regiões, trata-se do valor mais elevado dos últimos 13 anos. Na Ásia, o impacto é real, mas mais moderado, uma vez que a região representa apenas 11% dos postos de trabalho em risco (305 mil)”, acrescenta Maxime Lemerle, Analista Principal de Estudos de Insolvências da Allianz Trade.
A IA já está a aumentar as insolvências empresariais?
A Allianz Trade realizou uma análise a oito economias europeias[1] e nove setores[2] para identificar os principais fatores das insolvências empresariais. As conclusões sugerem que as condições macroeconómicas e os fundamentos específicos de cada setor continuam a ser os fatores determinantes, enquanto a adoção da IA ainda não está correlacionada com a evolução das insolvências. No entanto, a análise identifica uma exceção nos mercados de menor dimensão e menos diversificados.
“A nossa investigação sugere que a adoção da IA pode acelerar as insolvências empresariais em mercados de menor dimensão e menos diversificados, devido ao fosso competitivo que cria entre as empresas pioneiras na sua adoção e as que ficam para trás. Na Bélgica e na Suécia, que apresentam a taxa de adoção de IA mais elevada da nossa amostra (35%), observamos que os setores mais digitalizados são também os que registam o maior número de insolvências. O mesmo padrão surge numa perspetiva setorial. O setor de Informação e Comunicação, o que mais utiliza IA na nossa amostra (70% de adoção), apresenta valores de insolvência superiores à média nacional em cinco dos oito países analisados”, conclui Maxime Lemerle.