Do invisível ao investível: uma estrutura de investimento para a adaptação
às alterações climáticas

29 de abril de 2026

Sumário

 

A exposição ao risco climático está a aumentar de forma acentuada, embora de modo desigual entre perigos climáticos e regiões. O aquecimento global continua a acelerar, tendo 2025 sido o terceiro ano mais quente alguma vez registado, o que reforça os alertas de que o limiar de +1,5 °C poderá ser atingido já em 2030. Como consequência, as perdas globais associadas a catástrofes naturais aumentaram cerca de catorze vezes desde 1970, refletindo tanto a intensificação dos fenómenos climáticos extremos como o aumento da exposição, impulsionado pela urbanização, pela concentração de ativos e pelo crescimento populacional em zonas de risco. Este aumento do risco não é homogéneo: a exposição a cheias cresce mais rapidamente no Sudeste Asiático, Médio Oriente e Norte de África, a exposição a incêndios florestais aumentou de forma significativa na América do Norte, o stress térmico está a expandir‑se em África e na Ásia, e o risco de seca mantém‑se concentrado em regiões já caracterizadas por escassez hídrica.

O forte crescimento das perdas não seguradas representa um risco crescente para as finanças públicas, sendo necessário triplicar o investimento em adaptação para responder à dimensão das necessidades. Embora a percentagem de perdas não seguradas tenha permanecido relativamente estável, o seu volume absoluto aumentou de forma expressiva com o agravamento dos danos climáticos, deixando um número crescente de prejuízos sem proteção e centenas de milhões de pessoas sem cobertura financeira eficaz. Em várias grandes economias - incluindo México, África do Sul, Itália, Índia e China - o “protection gap” ultrapassa 80%. Os Estados tendem a absorver parte destas perdas através de apoios ad hoc, mas a dependência destas soluções transfere riscos climáticos crescentes para os balanços públicos e agrava as pressões orçamentais. Eventos climáticos extremos de grande dimensão têm sido associados a uma deterioração dos saldos orçamentais entre 0,2% e 1,1% do PIB. Ainda assim, os impactos médios nas economias da UE e da OCDE têm sido mais limitados, devido a instituições mais robustas e a níveis mais elevados de cobertura seguradora. Paralelamente, as seguradoras estão a transferir risco climático para os mercados de capitais através de obrigações de catástrofe, cuja emissão atingiu níveis recorde em 2025, sustentada por uma forte procura dos investidores. Esta tendência levanta questões sobre a crescente financeirização do risco climático na ausência de uma escala adequada de adaptação e de mecanismos públicos de partilha de risco. O investimento em adaptação deve ser encarado como uma forma de política orçamental preventiva; contudo, o atual nível combinado de despesa pública e privada na Europa ronda apenas 0,3% do PIB, muito abaixo do necessário. As projeções indicam que o investimento teria de triplicar para 0,9% do PIB para responder adequadamente às necessidades de adaptação na UE‑27 e no Reino Unido, o que corresponderia a cerca de 67,5 mil milhões de euros adicionais por ano.

A mobilização de capital para a adaptação climática à escala necessária continua a ser limitada por obstáculos estruturais profundos. O reduzido espaço orçamental em muitas economias europeias limita o cofinanciamento público necessário para atrair investimento privado. Os enquadramentos de política permanecem fragmentados entre jurisdições, gerando incerteza regulamentar e desencorajando compromissos privados de longo prazo. Por outro lado, os casos de investimento em adaptação encontram‑se pouco desenvolvidos: muitos projetos carecem de estruturas financiáveis, de histórico comprovado e de modelos financeiros compatíveis com os requisitos dos investidores institucionais. A isto acresce a divulgação inconsistente dos riscos físicos associados ao clima e a escassez de dados sobre os resultados das medidas de adaptação. Ao contrário da mitigação, os benefícios da adaptação são altamente dependentes do contexto local e difíceis de medir, quantificar e verificar. Em conjunto, estes fatores tornam a adaptação uma classe de ativos opaca e comercialmente desafiante para os investidores privados. Superar estes entraves exige uma ação coordenada em várias frentes: políticas mais ágeis e coerentes, reforço dos pipelines de projetos, melhoria dos mecanismos de partilha de risco, melhor infraestrutura de dados e propostas de investimento mais robustas. Neste contexto mais amplo, a classificação e a transparência assumem um papel fundamental — investidores e decisores públicos não conseguem coordenar‑se eficazmente em torno de uma classe de ativos que não conseguem definir ou acompanhar de forma clara.

Uma taxonomia comum para a adaptação climática constitui um primeiro passo essencial. Ao estabelecer uma linguagem partilhada, reduzir a ambiguidade e tornar visível o investimento em adaptação nos mercados financeiros, esta taxonomia facilitaria a identificação de oportunidades de investimento pelo setor privado, apoiaria o desenvolvimento de novos instrumentos financeiros e ajudaria a prevenir o greenwashing e o chamado “adaptation‑washing”. O estudo desenvolve uma taxonomia de 61 medidas de adaptação, com base na consolidação de enquadramentos existentes, classificando‑as de acordo com as suas características económicas e financeiras, em particular o grau em que os benefícios podem ser monetizados e apropriados por agentes privados. Deste exercício resulta uma divisão diferenciada dos modelos de financiamento: 38% das medidas são predominantemente públicas, sobretudo infraestruturas de grande escala e soluções sistémicas de resiliência; 23% são predominantemente privadas, concentrando‑se em segmentos escaláveis e orientados para a inovação, como tecnologias de arrefecimento e análise de dados climáticos; e 39% situam‑se numa zona intermédia público‑privada, evidenciando o papel central dos mecanismos de partilha de risco. Estes valores refletem a distribuição do número de medidas de adaptação, e não a repartição dos volumes de investimento, que variam significativamente entre atividades e continuam a ser difíceis de quantificar de forma consistente. Mais do que propor uma repartição de capital, a taxonomia oferece um enquadramento estrutural para compreender a capacidade de investimento e orientar os papéis respetivos do financiamento público, privado e misto.