Sumário
O choque energético atual é essencialmente uma perturbação da oferta, e não apenas um fenómeno de preços, sendo a Ásia a região mais em risco. O bloqueio do Estreito de Ormuz interrompeu cerca de 20 mb/d de fluxos de petróleo (aproximadamente um quinto da oferta global), deixando um défice líquido de cerca de 10 mb/d, apesar do desvio de rotas, do aumento de oferta e da libertação de reservas estratégicas. A lacuna resultante entre oferta e procura foi colmatada através da subida dos preços do petróleo (Brent +30% desde o início da guerra), o que reduziu o consumo. A escassez física já é visível: o combustível de aviação está a ficar mais restrito, o gasóleo está a ser racionado e os utilizadores industriais em mercados com controlo de preços enfrentam escassez plena. A Ásia é a região mais exposta (85% dos fluxos de petróleo de Ormuz, face a menos de 6% para a Europa e 4% para os EUA), o que tem sustentado um prémio de preço persistente de 6–7% acima do Brent. Uma primeira resposta política, sobretudo por parte dos países asiáticos, tem sido o racionamento da procura (semanas de trabalho mais curtas, restrições ao uso de energia e de combustíveis), reduzindo a procura global em cerca de 1 mb/d.
O apoio orçamental seguiu-se rapidamente, sobretudo através de alívios nos impostos sobre os combustíveis e de subsídios (cerca de 0,15% do PIB, em média, nos mercados desenvolvidos e cerca de 0,20% nos mercados emergentes). No apoio aos preços, a Ásia volta a liderar, com grandes economias emergentes (Coreia do Sul, Índia, Indonésia) a implementar pacotes orçamentais superiores a 1% do PIB, face a uma média global de cerca de 0,2%. De forma semelhante, nos mercados desenvolvidos, os grandes importadores de energia da UE apresentam uma média de cerca de 0,4% do PIB, comparando com aproximadamente 0,15% no total. No entanto, carteiras mais profundas compram mais: o pequeno pacote da Alemanha, de 0,04% do PIB, traduz-se em 22 USD per capita, enquanto o pacote da Índia, de 1,5% do PIB, apesar de ser 37 vezes maior em termos relativos, corresponde apenas a cerca de 40 USD per capita. Caso o conflito se revele mais prolongado (para além de maio), uma “segunda vaga” de apoio orçamental elevaria a despesa para 0,6–0,8% do PIB, uma vez que os governos reagiriam ao maior impacto dos preços da energia com um desfasamento de 2 a 6 meses. Ainda assim, nenhuma transferência orçamental consegue resolver o desajuste entre a oferta e a procura, que terá de ser corrigido através da destruição da procura.
Em comparação com 2022, o choque difere em dois aspetos‑chave: o apoio orçamental é substancialmente menor, embora proporcionalmente semelhante (cerca de 50% na Europa, uma vez que a dimensão do choque dos preços da energia também é inferior), e a transmissão dos preços enfraqueceu devido a mudanças estruturais no mix energético. Isto reflete a aprendizagem das políticas, a perceção de um choque temporário e as restrições orçamentais, levando os governos a permitir um maior impacto dos preços em vez de repetirem medidas de proteção em larga escala (por exemplo, a França a anunciar medidas mais tarde e de forma mais direcionada, e a Bélgica a não adotar quaisquer medidas). Entretanto, no mercado europeu da eletricidade, a maior penetração da energia eólica e solar reduziu a transmissão dos preços do gás para a eletricidade observada em 2022, embora o gás continue a ser indispensável para o equilíbrio da rede. A Espanha destaca‑se, com preços da eletricidade cerca de 70% mais baixos do que em Itália, refletindo uma maior quota de energias renováveis e melhores capacidades de armazenamento.
Por agora, os custos orçamentais para a maioria dos países são negligenciáveis, mas as economias emergentes com elevada dependência de importações de energia e um défice externo em deterioração são vulneráveis (Turquia, Egito, Marrocos e Hungria). Os custos do serviço da dívida deverão aumentar cerca de 0,05% do PIB por ano, em média, tanto nas economias avançadas como nas emergentes, inteiramente devido a um maior stock de dívida. As taxas de juro subiram apenas de forma modesta (EUA/Alemanha: +30 p.b., dívida em moeda forte de EM: +20 p.b., moeda local: +30 p.b.), com uma variação ainda menor das taxas reais. Um ajustamento gradual dos custos, dado o ritmo lento de renovação da dívida, faz com que os custos do serviço da dívida aumentem apenas marginalmente por este canal. Por outro lado, uma inflação mais elevada poderia até atenuar o peso da dívida (imposto inflacionário) e, assim, os custos do seu serviço; contudo, o aumento da inflação atualmente esperado é muito inferior ao de 2022, o que limita este efeito. Ainda assim, algumas economias emergentes destacam‑se: a fragilidade orçamental e os elevados encargos com o serviço da dívida são mais agudos no Egito, Hungria e Polónia. A depreciação cambial amplifica os efeitos negativos nos países com uma elevada proporção de dívida em moeda forte: Turquia, Argentina e Egito. No entanto, nem todos os mercados emergentes saem a perder com o choque energético: os preços mais elevados representam um ganho extraordinário para produtores de energia como a Nigéria, o Brasil e a Colômbia.